Biometria

Pesquisadores registraram que, no período reprodutivo 2016/2017, a maioria dos nascimentos aconteceu em ninhos artificiais instalados pelo projeto de conservação da espécie.

Depois de sair da categoria “vulnerável” para “quase ameaçado” na Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção em 2014, o acompanhamento do último período reprodutivo do papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), aconteceu entre setembro de 2016 e março de 2017, registrou 116 novos nascimentos e o êxito reprodutivo de 75 filhotes. A maioria dos filhotes nasceu em ninhos artificiais instalados no litoral do Paraná pelos pesquisadores do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa, que monitora a população das aves desde 1998.

Segundo os biólogos da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), instituição responsável pelo projeto, a retirada de árvores antigas da floresta é um dos principais obstáculos para a manutenção e aumento da população de papagaios, porque gera falta de árvores com cavidades adequadas  para serem utilizadas como ninhos pelos papagaios.  Rafael Meirelles Sezerban, que atua no projeto desde 2007, explica que o êxito reprodutivo da espécie aumentou com a distribuição dos ninhos artificiais em ilhas do litoral paranaense. “Os casais se adaptaram muito bem aos ninhos artificiais. Hoje temos quase 100% deles ocupados e estamos experimentando colocá-los também em São Paulo”, conta Sezerban. Os ninhos são feitos de madeira ou PVC e instalados em pontos estratégicos.

 

No litoral do Paraná, 140 ninhos são cadastrados e anualmente monitorados, para isso o projeto conta com ajuda de dois moradores locais desde 1998 que são importantes guardiões das áreas de reprodução. Já em São Paulo, a partir do apoio da Fundação Grupo Boticário e da Fundação Loroparque, as ações tiveram início em 2014, com um grande esforço na busca de ninhos ativos. Atualmente, as ações tem foco em seis municípios do litoral sul de São Paulo, com maior intensidade na Ilha Comprida, Cananéia, Iguape e Pariquera-Açu. Até o momento a equipe cobriu nos municípios paulistas uma área de 41.520 hectares durante 200 dias de atividades de campo. Essa busca registrou cerca de 65 cavidades potenciais para ninhos, e apenas 14 ninhos naturais ativos, com registro de nascimento de  30 filhotes e o sucesso reprodutivo de apenas oito.

A espécie do papagaio-de-cara-roxa ocorre apenas na faixa de Mata Atlântica que vai do litoral do Paraná ao litoral sul de São Paulo e sofre constante ameaça com a captura de filhotes para o comércio ilegal e destruição de seu habitat. Apesar da população no Paraná ter se mantido estável, no estado de São Paulo, a situação encontrada pelo projeto ainda é frágil, com registro de vários ninhos saqueados e filhotes capturados. Elenise Sipinski, coordenadora do projeto, explica que os ninhos paulistas estão em áreas muito próximas de cidades e estradas, já que muitos dos remanescentes de vegetação estão em áreas urbanas, o que facilita a ação de pessoas que destroem cavidades naturais para retirar filhotes de papagaio para o comércio ilegal.

No entanto, a equipe encontrou adesão e  apoio de moradores  locais também em São Paulo, como aponta a pesquisadora. “Me surpreendeu como a comunidade está envolvida.”, diz Sipinski. “Alguns moradores mais antigos se dispõem a nos apresentar a região e nos auxiliam na localização e na proteção dos ninhos, o que está ajudando muito no trabalho em campo e na manutenção dos ninhos com filhotes registrados”.

No começo do ano, os biólogos do Projeto Papagaio-de-cara-roxa contaram com o auxílio de moradores para resgatar com vida dois filhotes em um ninho destruído pela chuva. “Ao subir nesse ninho, verificamos que os filhotes estavam soterrados. Prontamente desenterramos três filhotes. No entanto, um deles não resistiu e acabou morrendo”, relata Roberta Boss, bióloga do projeto. Os filhotes sobreviventes receberam anilhas de identificação e já voaram do ninho.